(sem referência) – 02/10/1912
O TEATRO NACIONAL
O início da
temporada, ontem, no Municipal com “Quem não perdoa”, peça em 3 atos, de D. Julia
Lopes de Almeida.
Afinal aí
está o Teatro Nacional. Nasceu ontem, é infantezinho, mas uma criança rosada e
linda, com uns olhitos bem abertos, de quem já conhece o mundo em que vai
viver... Nós, que lutamos desde o começo ao lado de Coelho Netto e de Eduardo
Victorino, que batemos palmas ao sr. Prefeito e aos srs. Intendentes pela sua
obra, estamos contentíssimos. A noite de ontem mostrou que temos artistas
inteligentes e que trabalham, ensaiadores que conhecem a sua profissão,
cenógrafos convenientes.
***
A noite de
ontem mostrou mais: que o Teatro Nacional pode funcionar sem perigo de
faltar-lhe a matéria prima, as peças. O espetáculo deu-nos uma, de alguém que
recebeu ovações daquelas concedidas apenas aos grandes autores. Alguém que já
era um dos nossos grandes escritores, e que reúne a tudo isso o encanto
feminino, nome dos mais queridos da nossa sociedade – D. Julia Lopes de
Almeida.
“Quem não
perdoa” é uma peça formosa, com aquele suave perfume das coisas boas e lindas,
que o bom e belo espírito de D. Julia sabe espalhar pelas suas obras.
É a
história, entretanto, de um lar que se desmorona, de duas vidas que são
afogadas em sangue. Uma história triste, dolorosa, como tantas outras que
encontramos ainda vivas, intermináveis, por aí, a cada passo, esperando o seu
dia de sangue, que o Amor bebe, insaciável... Uma história que D. Julia contou,
com uma encantadora naturalidade, em três atos absolutamente discretos e bons.
D. Elvira é
viúva e pobre, mas tem a riqueza de uma filha encantadora, Ilda. Do meio de sua
quase miséria quer tira-la o amor: Gustavo, rico e moço, que ama Ilda e pede a
sua mão. A mãe extremosa, conhecedora do mundo e dos amores humanos, hesita,
intimida Gustavo: velaria pela felicidade de Ilda “como um cão de fila à porta do
seu dono”. E o primeiro ato, numa exposição clara e simples, termina entre os
protestos de amor e fidelidade de Gustavo.
Mas...
depois do 1º ato, vem o 2º, tanto
nas peças como na vida. E o de ontem, no Municipal, mostrou mais um marido,
casado de anos, cansado dos mesmos beijos, apesar dos lábios magníficos, a
fugir da monotonia nos braços das amantes. E, além desse marido, que é Gustavo,
a mãe extremosa da pobre mulherzinha, que lhe adivinhou a solidão de esposa
abandonada, com o oasis de um novo amor, “desta vez sincero”, e o espectro do
adultério a rondar aquele coração moço e desprezado.
Provocando o assunto, D. Elvira conta a Ilda
como a vida é cruel para as mulheres: que ela já sofreu assim, mas que ninguém
lhe viu nas lágrimas de esposa esquecida o clarão de um outro afeto que
sacrificou sempre, nem “ele” mesmo soube... Mas Ilda, que promete sacrificar-se
também, diante da mãezinha, deixa-se conduzir pelo coração já desvairado; e,
talvez porque não tenha uma filha para igualmente se sacrificar por ela esvazia
a casa com hábeis pretextos, e numa tarde, na sua linda sala, recebe pela
primeira vez o seu amado.
O seu amado? Sim, Manuel Ramires, um jovem
secretário de legação, que parte no dia seguinte – sem nunca ter tido um
simples beijo seu, e que a ama, segundo diz...
Afinal, o respeito de Ramires por aquele lar faz
com que o arrebatamento de Ilda, um belo tipo de mulher apaixonada, termine
pelo “nunca mais” dos que se suicidam um para o outro, com a separação.
E numa hora de separação, por que não, ao menos,
um beijo?
Aliás, eles não raciocinaram no palco. E, na
inconsciência de um egoísmo que luta antes do suicídio, perderam-se no beijo
primeiro e último.
Perderam-se, não. Ela se perdeu.
Ele, ao contrário, saiu, foi-se a continuar a
vida, sem ouvir os gritos de uma pobre mulher apunhalada.
Gustavo viu o beijo, de fora, na varanda. Fora
já avisado das “suspeitas” da maledicência geral; estava a buscar um meio de
acreditar ser tempo ainda de salvar Ilda. Viu e não hesitou: misturou com
sangue a doçura do beijo que estava a descer ao coração da esposa, beijo que
pensava ser o “último” e era o primeiro...
Naturalmente, no 3º ato, há um júri que absolve
unanimemente o “marido defensor da honra ultrajada”, que assassinou a mulher
num fragrante de adultério. A cena é a casa do viúvo assassino. Há meninas
casamenteiras que se candidatam, uma tia e um tio, muito boas caricaturas dos
nossos, há amigos que esperam Gustavo absolvido, que sai da prisão. Mas há
também a casa com os retratos da morta e sem os criados do outro tempo. As
caras novas parecem-lhe, a Gustavo,, como que espectros da sua vítima. E,
depois que os amigos se vão, entre eles o marido da sua amante última, que veio
saudar o “exemplo da sociedade”, alguém – “quem não perdoa” – vem arrancar o
desgraçado da conversa silenciosa e torturante com o seu remorso, que também
não lhe quer perdoar.
É D. Elvira, a mãe de Ilda, a última visita
daquele dia de absolvição e cumprimentos; o remorso encarnado que cresceu com o
ódio lindo de um coração de mãe, e que vem buscar-lhe a vida, ao assassino,
varando-lhe a garganta como prometera, como um “cão de fila”, que mata o ladrão
do seu único bem, da sua felicidade. E o velário desce enquanto na janela, para
a rua, para o sol, para a vida, a pobre velha grita que matou um homem, “um
homem honrado”.
Não é preciso elogiar-se esta peça. O seu enredo
mostra o que ela é. A sua feitura, sim, deve esperar um justo louvor de todos
os críticos. As duas violências sangrentas, mesmo, os dois assassinatos, têm a
atenuar-lhes a dureza, no 2º ato, aquele belo descobrir lento, por D. Elvira,
da morte da filha; no 3º ato, o final magnífico, de arte vibrante e nova, após
a vingança, daquela confissão desesperada de mãe, gritada para a rua.
***
Quem escreve estas linhas não teve tempo de
assistir nem ao ensaio geral. Não pôde, pois, à primeira vez dizer tudo sobre o
desempenho da peça. Diz, porém, alguma coisa sincera, desde já.
Num grande destaque, não se sabe o que mais louvar:
se a correção da artista que é, desde muito, Maria Falcão (D. Elvira), se a
progressiva afirmação artística com que Lucilia Peres (Ilda), na sua linda
mocidade tanto faz e mais promete pelo Teatro Nacional. O trabalho de Lucilia,
ontem, mostrou como a jovem patrícia estuda e evolui na sua arte. Aquela cena,
com D. Elvira, no 2º ato, deu-nos ali, no palco do Municipal, uma Lucilia que
vai em breve encontrar definitivamente os autores brasileiros.
Maria Falcão, no 1º ato, na cena acima referida,
do 2º, nos finais do 2º e do 3º, justificou bem a confiança de D. Julia,
entregando-lhe o papel de D. Elvira.
João Barboza e Ferreira de Souza, Luiza de
Oliveira, muito bem. Bem Alvaro Costa e os demais artistas. Um conjunto que não
desafinou.
Nota de registrar, a linda romanza do 3º ato,
uma faceirice musical, escrita expressamente por Alberto Nepomuceno.
***
Afinal, o Teatro Nacional nasceu ontem. A sala
radiosamente cheia do Municipal, num dos seus dias gloriosos, não economizou
aplausos. E Eduardo Victorino perguntava ao fim, com emoção, numa roda de
amigos entre os bastidores, sobre aquele trabalho todo:
- Honesto? Vocês acham?
Mas as palmas intermináveis, na plateia,
respondiam antes, melhor que nós.
S.S.
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